Sabemos quanto de tributos pagamos?
Desirée Costa - Consultora de Tributos da CLR Advogados & Associados
Para começar, nada melhor do que relembrar o disposto na Carta Magna
que rege o Brasil. Nossa Constituição Federal é muito clara quando diz,
no seu artigo 150, parágrafo 5º, que "a lei determinará medidas para que
os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam
sobre mercadorias e serviços". Pelo que podemos observar, trata-se de um
direito nosso, do cidadão brasileiro. Pois bem, estamos em meados de
2012 e a Constituição Federal é de 1988. Passados 24 anos, escondem ou
furtam de nós tão importante esclarecimento. Somos totalmente leigos
nesse assunto. Somos um povo consumista por natureza, mas, infelizmente,
não sabemos o que pagamos, ou seja, qual o peso da carga tributária nos
preços dos produtos que consumimos no nosso dia a dia. E aqui reside um
dos principais pontos para que a reforma tributária seja tão desejada,
qual seja, a grande influência dos tributos sobre o consumo no Brasil e
que oneram sobremaneira o bolso do consumidor.
Atualmente, o Brasil tem como maior imposto sobre valor adicionado o
ICMS, de competência estadual, seguido do IPI, de competência federal.
Somando esses impostos ao ISS (municipal) e outras contribuições
sociais, como o PIS e Cofins, obtemos o sistema tributário incidente
sobre o consumo. De forma mais detalhada, o ICMS, com alíquotas
variáveis de acordo com o estado e com o produto ou serviço, fica,
normalmente, entre 17% e 30%. O PIS e Cofins, contribuições federais
incidentes sobre o faturamento das empresas, têm alíquotas nominais de
1,65% e 7,6%, respectivamente. E o IPI, Imposto sobre produtos
Industrializados, tem alíquotas variáveis de 0 a 45%.
Por esses percentuais, podemos perceber que os valores finais agregados
ao preço do produto não são baixos. E somos nós, consumidores, que
suportamos essa carga tributária. Os tributos sobre o consumo
representam mais da metade do total dos tributos arrecadados. Acabam
atingindo, mais fortemente, os mais pobres, pois eles gastam tudo que
ganham no consumo. E em tudo que gastam estão embutidos os tributos.
Quanto mais o produto comprado tiver valores agregados, ou seja, por
quanto mais fases ou intermediários passar para ficar pronto para o
consumo, maior será o valor dos tributos pagos pelo comprador.
E por que nós, consumidores, não sabemos quanto de tributos pagamos
sobre o preço dos produtos? Na verdade, não há dificuldades para que
essas informações venham à tona, é o direito do cidadão consumidor. Por
que, então, nosso direito não é respeitado? Sem precisar raciocinar
muito, a resposta chega de imediato: não convém ao governo que tais
informações cheguem ao conhecimento do cidadão. Um sistema tributário
mais transparente possibilitaria ao contribuinte ser um fiscal da
utilização dos recursos arrecadados via impostos. Geraria, portanto,
mais cobrança dos governos pelo bom uso do dinheiro público.
É como se a população passasse a exigir a contrapartida pelo dinheiro
que entregou ao Estado. Como o governo poderia alegar falta de recursos
para a saúde, para a educação, entre outros, se o cidadão souber o
quanto é arrecadado aos cofres públicos? Não, definitivamente, não é
isso que o governo quer. Ele bem sabe que certas verdades não devem vir à
tona, principalmente num ano de eleições. Enquanto o eleitor não
souber, não pesa no voto. Enquanto não pesa no voto, não pesa na decisão
política. Simples assim.
Fonte Chico bruno
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